Cheguei à conclusão de que a performance custa muito caro.

Por muito tempo, eu fui movida pela próxima etapa e o próximo passo sempre me seduziu.

A próxima meta.
O próximo projeto.
O próximo reconhecimento.
O próximo lugar onde eu precisava estar para, finalmente, sentir que estava chegando em algum lugar.

Havia algo intoxicante em ter tudo planejado: saber o que fazer, para onde ir, o que conquistar em cada fase da vida.

Era bonito por fora.
Produtivo.
Admirável, até.

E eu confundi movimento com propósito.
Agenda cheia com relevância.
Resultados com identidade.

Eu achava que estava construindo uma vida.
Em muitos momentos, talvez estivesse apenas sustentando uma personagem eficiente demais para admitir que estava cansada.

E o mais curioso é que isso não acabou em um grande colapso dramático.
Não houve uma ruptura cinematográfica.

Foi mais silencioso que isso.

Um dia — ou talvez depois de muitos anos — simplesmente parou de fazer sentido.

E não foi porque a rotina ficou pesada demais. Na verdade, quando alguns pesos saíram dos meus ombros, eu percebi algo desconcertante: a performance já não brilhava mais os meus olhos.

Ela já não aquecia meu coração.
Já não me convocava.
Já não fazia promessas que eu quisesse acreditar.

Existe uma frase de um autor que diz que o coração humano está sempre buscando algo para preenchê-lo.

Talvez seja verdade.

Mas, pela primeira vez, eu não senti necessidade de substituir uma obsessão por outra.

Não quis trocar produtividade por uma nova versão romantizada de propósito.
Não quis maquiar o vazio com discursos bonitos sobre reinvenção.

E talvez essa seja a parte mais honesta de tudo.

Nem todo fim precisa ser imediatamente ressignificado.
Nem toda dor precisa virar aprendizado no dia seguinte.
Nem todo encerramento precisa produzir uma narrativa inspiradora para consumo alheio.

Algumas coisas só precisam acabar. E está tudo bem.

No lugar da performance, eu não estou construindo outro altar.

Estou limpando os escombros.
Jogando fora os excessos.
Reconhecendo os danos.

E os danos foram reais.

Ansiedade.
Autocobrança.
Noites mal dormidas.
Relações negligenciadas.
Um coração que nunca descansava porque sempre acreditava que precisava provar alguma coisa.

Esse é o problema da performance sem equilíbrio: ela nunca diz “já é suficiente”.

Ela sempre pede mais.

Mais resultados.
Mais visibilidade.
Mais produtividade.
Mais aprovação.
Mais versões impecáveis de quem você deveria ser.

E enquanto a gente corre para alcançar esse ideal inalcançável, a vida real vai ficando para depois.

O descanso fica para depois.
Os vínculos ficam para depois.
A saúde fica para depois.
Você fica para depois.

Até perceber que passou anos sendo aplaudida por uma versão sua que estava adoecendo em silêncio.

E sinceramente? Não vale a pena.

Não vale o burnout.
Não vale a ansiedade constante.
Não vale sacrificar sua paz para manter uma imagem de sucesso que, no fim do dia, nem sustenta sua alma.

Foi nesse lugar de exaustão que Deus começou a me ensinar sobre desfrute.

E desfrutar não é viver sem responsabilidade.
Não é abandonar sonhos.
Não é escolher uma vida sem ambição.

Desfrutar é equilíbrio.

É trabalhar sem transformar trabalho em idolatria.
É descansar sem culpa.
É celebrar conquistas sem viver desesperada pela próxima.
É viver o presente sem fazer de cada momento uma vitrine.

Desfrutar é entender que sua vida não precisa ser uma apresentação constante.

Ela pode ser vivida de verdade.

E talvez essa seja uma das maiores libertações da vida adulta: perceber que não precisamos estar em constante estado de performance para ter valor.

Não precisamos provar que merecemos amor.
Não precisamos produzir para justificar nossa existência.
Não precisamos viver cansadas para nos sentirmos importantes.

A performance desequilibrada adoece.Mas o desfrute cura.

O desfrute devolve fôlego.
Devolve presença.
Devolve fé.
Devolve alegria nas coisas simples.
Devolve você para você mesma.

E, no fim das contas, talvez a pergunta mais importante seja: quanto custa performance?

Se a resposta for a paz, a saúde, a fé, os relacionamentos e a alegria…

O preço está alto demais.

E talvez seja hora de parar de performar uma vida admirável por fora e começar a desfrutar uma vida que faça sentido por dentro.

Porque no final, é infinitamente melhor viver uma vida real e inteira do que ser aplaudida por uma versão nossa que está se destruindo em silêncio.

 

Se cuida!