Nem toda recuperação é um retorno, algumas curas são uma reconstrução.

Essa frase me encontrou em um lugar onde quase nada mais conseguia chegar.

Faz um ano que adoeci, mentalmente.

Embora, pensando bem, talvez essa seja apenas a versão mais visível da história. A verdade é que eu já vinha adoecendo havia muito tempo, mas eu continuei funcionando, e talvez esse tenha sido um dos meus maiores enganos.

Confundir funcionamento com saúde.
Confundir alta performance com força.
Confundir resistência com inteireza.

Eu estava ali. Entregando. Produzindo. Resolvendo. Sustentando. Subindo.

Sempre subindo.

Só não sabia se essa era a montanha que eu queria escalar. Hoje, quando olho para trás, me faço uma pergunta incômoda: eu estava escalando para o topo… para fazer exatamente o quê? Porque existe uma tragédia em subir sem questionar a montanha.

E eu subi.

Mesmo cansada.
Mesmo vazia.
Mesmo me deixando para depois.

Até que o colapso chegou e colapsos têm uma honestidade brutal, eles não negociam com a imagem que você construiu de si. Não respeitam seus títulos. Não se impressionam com sua capacidade de dar conta.

O burnout simplesmente entrou e fez o que eu passei anos evitando fazer.

O que eu não tive coragem de interromper, meu corpo interrompeu por mim.

Me derrubou.

Derrubou minhas estruturas.
Derrubou minhas certezas.
Derrubou a única forma de existir que eu conhecia.

A vida que eu sabia viver era a vida da mulher que dava conta.

A forte.
A funcional.
A necessária.
A que segurava.

E, de repente, eu não conseguia mais me sustentar.

Nunca me senti tão vulnerável. Tão exposta à minha própria fragilidade.

Aos 42 anos, me vi diante de um tipo de vazio que eu não sabia nomear.

Sem perspectiva.
Sem direção.
Sem qualquer sensação de futuro.

Como se eu estivesse presa em um labirinto sem saída, caminhando por corredores estreitos e sufocantes, sem mapa, sem atalhos, sem qualquer artifício capaz de me tirar dali.

E talvez o mais desesperador não tenha sido a dor.

Foi a impotência.

Porque, pela primeira vez, eu não tinha competência suficiente para me salvar.

Não havia disciplina.
Não havia inteligência emocional.
Não havia esforço extra.

Não havia performance que me tirasse de mim.

Eu me senti largada.

Insegura.
Incerta.

Pequena diante de uma realidade que eu não conseguia controlar.

E não, eu não fiquei parada. Essa é a parte mais difícil de explicar para quem olha de fora.

Eu fiz tudo o que me disseram que ajudaria.

Tomei medicação.
Fiz terapia.
Desacelerei.
Li.
Corri.
Disse não.

Eu cooperei com a cura.

Mas, sendo honesta, durante muito tempo eu não vi nada mudar dentro de mim.

Nenhuma fresta. Nenhum sinal claro. Nem sequer um pequeno buraco na parede que me permitisse espiar como seria viver do lado de fora do burnout.

Nada.

Só travessia.

Só o desconforto de continuar caminhando sem evidência de saída.

Até que hoje, em muito tempo, algo fez sentido.

Não como conceito.

Como revelação.

Reconstrução.

E essa palavra me desmontou.

Porque talvez meu sofrimento não estivesse apenas no burnout.

Talvez parte dele estivesse na insistência secreta de querer voltar a ser quem eu era.

Voltar a produzir como antes.
Voltar a pensar como antes.
Voltar a suportar como antes.
Voltar a ser admirada como antes.

Voltar.

Mas e se esse nunca foi o destino? E se a cura não for uma estrada de volta?

E se eu estiver sofrendo também porque ainda negocio com a possibilidade de retornar para a mesma estrutura que me adoeceu?

Essa pergunta me confronta.

Porque eu começo a suspeitar de algo dolorosamente verdadeiro:

Talvez eu não precise voltar a ser quem fui.

Talvez eu precise permitir a morte de uma versão minha que sobreviveu por performance.

Talvez a mulher que adoeceu não precise ser restaurada.

Talvez ela precise ser despedida. Ou enterrada.

Isso assusta.

Porque reconstrução não preserva tudo.

Reconstrução escolhe o que permanece.

Ela mexe nas fundações.
Questiona vigas.

Remove excessos.
Derruba paredes que pareciam indispensáveis. Reconstruir exige coragem para admitir que algumas estruturas não podem ser salvas.

Nem toda ruína é tragédia, algumas são misericórdia.

E a verdade difícil é que o burnout me obrigou a encarar foi que não estou apenas tentando me curar de um esgotamento, estou aprendendo a existir sem a personagem que me manteve socialmente admirável e internamente exausta.

A personagem que dava conta de tudo.
A personagem que sustentava todos.
A personagem que sempre tinha respostas.
A personagem que transformou utilidade em identidade.

Talvez ela não sobreviva à reconstrução.

E talvez… isso seja graça.

No fundo, acho que Deus não esteja tentando me devolver para quem eu era.

Talvez Ele esteja, em amor, me desfazendo do que nunca fui.

Como?

Eu não sei.

Só Deus sabe.

Mas, pela primeira vez em muito tempo eu esteja fazendo as pazes com uma possibilidade: nunca mais voltar para a Bárbara antiga.

E, pela primeira vez, isso não soa apenas como perda, soa como renascimento.

E possivelmente eu não esteja voltando para casa, eu esteja construindo uma pela primeira vez.

 

Cuide de sua saúde mental!